segunda-feira, 24 de maio de 2010

LAMINITE/AGUAMENTO

A Laminite (também conhecida por Aguamento) é uma doença com efeitos potencialmente devastadores que afeta os cascos do cavalo. Neste artigo descrevem-se os tecidos do casco implicados na laminite, explicam-se alguns dos mecanismos causativos da doença, sinais clínicos, diagnóstico e cuidados a ter, bem como os métodos de tratamento mais usados correntemente.

O nome da doença provem dos tecidos afetados que são as estruturas laminares submurais do casco, também conhecidas por lamelas ou lâminas. O casco é constituído por uma cápsula rígida de tecido córneo, em cujo interior se encontra o osso da falange distal e respectiva articulação com a falange média (Fig.1).

Trata-se de uma estrutura altamente especializada com a função de suporte e apoio de cada um dos membros, que conjuntamente suportam todo o peso do animal. Estima-se que os membros anteriores (mãos) suportam cerca de 60% do peso do cavalo, sendo os restantes 40% suportados pelos posteriores (pés).
Isto significa que no caso de um cavalo de 500 kg cada mão suporta uma força de cerca de 150 kg.

Fig. 1: Fotografia de uma secção sagital do casco de um cavalo normal ilustrando a falange distal (FD), falange média (FM), articulação interfalangeana distal (AID) e parede interna do casco (PIC).

A superfície da falange distal é aderida à porção interna do casco através deste tecido conjuntivo especializado que é o tecido laminar (Fig.2).O Tecido laminar é constituído por duas camadas principais: as lamelas epidérmicas (camada externa) e as lamelas dérmicas (camada interna). De modo a aumentar a superfície de adesão entre estas estruturas, o tecido laminar está disposto numa forma sinuosa sendo constituído por lamelas primárias e lamelas secundárias. A disposição da arquitetura do tecido laminar pode ser verificada quando este é analisado ao microscópio (Fig.3).


Fig.2: Fotografia de um casco de um cavalo normal ilustrando a interface do tecido laminar (TL) entre a superfície de falange distal (FD) e a parede interna do casco (PIC).


Fig.3: Fotografia de uma imagem microscópica do tecido laminar ilustrando a disposição sinuosa das lamelas dérmicas aderidas às lamelas epidérmicas, com respectivas lamelas primárias e lamelas secundárias.

A laminite é uma doença que resulta na inflamação dos tecidos laminares. Uma das conseqüências do processo inflamatório é a perda de função das estruturas afetadas. De fato, o que acontece num caso de laminite é a diminuição da adesão entre a parede interna do casco e a falange distal.

As forças do peso do cavalo são transmitidas através da falange distal até a interface do tecido laminar, resultando na rotura e separação das lamelas. O que acontece na prática é que a falange distal separa-se da parede do casco exercendo pressão sobre a sola.

Nestas situações diz-se que a falange distal sofreu “rotação” ou que “afundou”, conforme o grau de separação (Fig.4 e caixa: Exame Radiográfico).


Fig.4: Fotografia de uma secção sagital do casco de um cavalo afetado com laminite ilustrando a rotação da falange distal (FD) causada pela rotura do tecido laminar (TL) com conseqüente separação entre a falange distal e a parede do casco (PIC).
Note-se a concavidade (seta amarela) na sola causada pela pressão exercida pela falange distal (estas anomalias são evidenciadas ao comparar esta imagem com a Fig.1).

Este processo é extremamente doloroso para o cavalo uma vez que ele tem necessidade de continuamente apoiar o peso do seu corpo nos cascos. A única forma que o cavalo tem de aliviar as forças de tensão exercidas no casco durante o processo da laminite é deitar-se no boxe. No entanto o que freqüentemente acontece é que estes animais normalmente hesitam em deitar-se porque sabem que o ato de se deitarem e principalmente levantarem, vai ser demasiado doloroso.

Posto isto, os sinais clínicos num cavalo com laminite são uma claudicação severa e bilateral (ie: que afeta os dois membros) na maioria dos casos ou em alguns casos quadrilateral (ie: que afeta os quatros membros). O cavalo hesita em mover se e tende a alternar o apoio do seu peso de uma mão para a outra. Quando forçado a deslocar-se, o cavalo tende a inclinar o peso do seu corpo sobre os posteriores, tentando apoiar-se apenas na porção dos talões das mãos (Fig.5).



Fig.5: Fotografia de um cavalo com laminite ilustrando a postura e andamento típico desta doença.

O exame clínico revela ainda um pulso digital forte e calor na parede do casco e banda coronária. Quando o casco é testado com uma pinça de cascos o cavalo apresenta dor na região das pinças e à frente do vértice das ranilhas (Fig.6).

As maiorias dos casos de laminite estão associadas com fatores nutricionais, estados de hipovolémia, infecções e traumatismo do casco. Apesar do enorme progresso verificado no estudo desta doença nas duas últimas décadas o mecanismo exato de como a laminite ocorre nos cavalos não é ainda completamente compreendido nos dias de hoje.

Vários investigadores têm hipóteses formuladas sobre o mecanismo de ação de como ocorre à doença; no entanto há ainda questões importantes que restam por resolver.

Uma das causas mais freqüentemente reconhecidas é o excesso repentino de hidratos de carbono (glúteos ou açucares) na dieta; na ração ou concentrado ou sob a forma de erva na pastagem.
Cavalos obesos estão mais predispostos a sofrerem de laminite e apresentam um laminar, podendo levar à rotura das lamelas desencadeando o processo de laminite.



EXAME RADIOGRÁFICO

O exame radiográfico do casco é um teste de diagnóstico bastante útil em cavalos com laminite pois permite visualizar a posição da falange Fig. 6: Fotografia de um casco ilustrando a região da sola onde normalmente um cavalo com laminite apresenta um elevado grau de dor (cruzes vermelhas).

Qualquer doença sistêmica que cause stress e debilitação pode resultar no particularmente no caso de animais obesos ou que tenham sofrido episódios prévios de laminite.

A laminite é também uma seqüela freqüente em animais afetados com doença de Cushings (http://www.equisport.pt/).

O diagnóstico da laminite é obtido com base nos sinais clínicos típicos da doença, podendo ser complementado com o exame radiográfico dos cascos (Ver caixa: Exame Radiográfico).

distal dentro do casco. Deste modo é possível determinar se ocorreu rotação ou afundamento da falange distal, o que obviamente vai influenciar o tratamento e prognóstico da doença.


Radiografia A.
Cavalo normal: Note-se que a superfície externa da falange distal é paralela à superfície da parede do casco ao longo de todo o comprimento.

Radiografia B.
Cavalo com laminite: Devido à rotura do tecido laminar, a falange distal separouse da parede do casco e sofreu rotação. Isto é evidenciado radiograficamente ao verificar-se um grau de divergência entre a parede do casco e a superfície da falange distal, que deixaram de ser paralelas.

Uma regra geral que qualquer pessoa que lida com cavalos deve ter em conta é a seguinte:


SE UM CAVALO OU PONEI APARENTA TER LAMINITE DEVE SER ASSUMIDO QUE SE TRATA DE FATO DE UMA LAMINITE ATÉ PROVA EM CONTRÁRIO

Outra causa freqüente é o traumatismo do casco. Isto pode ocorrer por dois modos: concussão repetitiva por trabalho excessivo, principalmente em superfícies duras e com ferração inadequada; ou por excesso de apoio de peso quando o cavalo apresenta uma claudicação severa em que não apóia um dos membros e conseqüentemente tem de apoiar o peso do seu corpo nos restantes três membros.

Isto vai sobrecarregar os cascos, principalmente das mãos, com resultante excesso de tensão no tecido um cavalo possa ter uma laminite, devem ser instigadas com o máximo de urgência todas as medidas de “pronto-socorro” até que o Médico Veterinário tenha oportunidade de examinar o cavalo.

A laminite deve ser considerada uma emergência médica. Esta doença pode ter efeitos potencialmente devastadores, uma vez que num estado avançado o grau de destruição do casco e conseqüente grau de dor podem levar a que a eutanásia seja a única opção para aliviar o sofrimento do animal. Posto isto, o objetivo principal ao lidar com esta doença deverá ser evitar a progressão para um estado avançado, tentando minimizar o grau de destruição dos tecidos laminares afetado. Ao longo dos anos têm sido aplicados variadíssimos tipos de tratamentos a cavalos

TRATAMENTO DE SUPORTE FÍSICO DO CASCO


O tratamento de suporte físico do casco tem por objetivo reduzir ou neutralizar as forcas de tensão exercida no tecido laminar e que ultimamente conduzem à separação das lamelas dérmicas e epidérmicas. Estas forças são causadas pelo peso do cavalo, através do seu esqueleto, e culminam na separação entre a falange distal e a parede do casco. Cada vez que um cavalo com laminite dá um passo, ocorre tensão nas lamelas. Isto não só causa dor, mas principalmente promove separação das lamelas. Por esta razão, a principal medida a tomar perante um caso agudo de laminite é minimizar o exercício; o cavalo deve ser mantido num boxe e receber descanso absoluto. Igualmente importante é a superfície na qual o cavalo apóia o casco. Na maior parte dos casos, a palma do casco é uma superfície côncava. Isto implica que numa superfície firme (ie: tijolos ou cimento), a única parte do casco que se apóia no solo é a parede do casco. Por outro lado, numa superfície mole e moldável, tipo areia ou terra fina, toda a totalidade da superfície da sola, incluindo a ranilha, suporta peso, distribuindo deste modo as forças do peso do cavalo por uma área de superfície maior, diminuindo assim a força por unidade de superfície.

Quando um cavalo com laminite tem de se apoiar numa superfície firme, as forcas de tensão entre as lamelas são bastante elevadas uma vez que não existe qualquer apoio na superfície da palma a neutralizar as forcas de tensão.

Numa superfície mole, o apoio do peso na palma e ranilha contribuem para suportar parte da força do peso do cavalo diminuindo consideravelmente as forças de tensão entre as lamelas. Posto isto, a superfície ideal para repousar um cavalo com laminite é areia fina. No entanto, na prática, esta solução não é fácil de obter. Contudo, em situações que o cavalo está entabulado perto de uma praia ou outra fonte de areia, esta opção deve ser considerada. Terra fina e mole pode ser uma opção mais viável em certos casos. Em terceiro lugar por ordem de preferência, mas o mais usado correntemente são as camas com aparas de madeira. Estas devem cobrir toda a área do boxe e a cama deve ter uma espessura razoável de modo a evitar espaços que possam expor o solo do boxe.


Fig. 7 A: Placa de esferovite antes de ser aplicada ao casco com fita adesiva,


B: Produto final após aplicação.

Outro método diferente utilizado para aliviar o apoio do peso na parede do casco e transferir as forças de tensão para a palma e ranilha consiste na aplicação de placas de 5 esferovite especializadas para este efeito (Fig. 7).

Também existem vários tipos de ferraduras ortopédicas para o mesmo efeito. Desde o advento de materiais sintéticos e acrílicos para reparação da parede e palma do casco, estes produtos têm sido utilizados conjuntamente com ferraduras ortopédicas com bastante sucesso em casos de laminite (Fig. 8 e 9). Uma vez que a aplicação dos cravos para fixar as ferraduras pode ser um processo doloroso num cavalo com laminite aguda, a preferência do autor é utilizar ferraduras ortopédicas apenas na fase de recuperação da laminite em que o cavalo se apresenta relativamente mais confortável. Contudo, técnicas modernas permitem a aplicação de ferraduras ortopédicas com colas ou resinas especializadas, evitando a necessidade de ter de martelar cravos, o que permite que as ferraduras possam ser usadas numa fase bastante mais precoce.


Ferradura ortopédica freqüentemente usada em cavalos com laminite.

TRATAMENTO MÉDICO
O tratamento médico deve ser instituído pelo Médico Veterinário com o máximo de brevidade e deve acompanhar o tratamento de suporte físico do casco. Muitos tipos de medicamentos têm sido recomendados para o tratamento de laminite. No entanto, o único tipo de medicamento cuja eficácia está cientificamente comprovada são os antiinflamatórios não-esteroides, dos quais a fenilbutazona e mais recentemente a suxibuzona sejam talvez os mais utilizados.

A laminite é uma doença que resulta num processo inflamatório e como tal a administração de antiinflamatórios ajuda a reduzir os efeitos da doença. Além disso, os agentes antiinflamatórios não-esteroidestêm vários efeitos sistêmicos,
Fig. 8 A: A aplicação de material acrílico (Equi-Pak) para suportar a ranilha e porção posterior da sola num cavalo com laminite.


B: Produto final. nomeadamente na neutralização de toxinas, e ação analgésica (diminuição da dor). A eliminação da dor num cavalo com laminite é um aspecto bastante importante, não só do ponto de vista humanitário, mas também porque diminui o stress e ajuda o animal a relaxar, o que é essencial para reduzir a tensão nas lamelas e recuperação dos tecidos afetados.

Uma das hipóteses consideradas para o mecanismo de ação da laminite é que ocorre constrição dos vasos sanguíneos que irrigam o casco. Os tecidos laminares, que 6 são extremamente sensíveis à depleção de nutrientes e oxigênio, são facilmente afetados e entram em degenerescência resultando no processo de laminite. Por esta razão muitos autores recomendam a aí permanecer até ser examinado pelo Médico Veterinário que poderá confirmar o diagnóstico e instigar o tratamento adequado. HC administração de produtos vasodilatadores. Estes agentes dilatam a parede dos vasos sanguíneos prevenindo assim a constrição; no entanto a sua eficácia nos casos de laminite não está ainda completamente comprovada. Um dos agentes vasodilatadores comumente utilizados é a acepromazina que também tem efeitos tranqüilizantes, pelo que os cavalos tendem a parecer meio a dormir. Este efeito secundário não é indesejável uma vez que também ajuda os animais a relaxar e a permanecerem quietos e sossegados, reduzindo a tensão nas lamelas do casco. Pela mesma razão, é bastante favorável que o cavalo passe tempo deitado no boxe, pois este é o único método que permite ao animal aliviar totalmente o apoio do peso nos cascos.

PROGNÓSTICO
O prognóstico em qualquer caso de laminite dever ser sempre considerado reservado, pelo menos na fase aguda da doença. Fatores que afetam o prognóstico incluem, entre outros, a condição física do cavalo, animais gordos ou com excesso de peso apresentam pior prognóstico; raça, pôneis apresentam um prognóstico mais favorável em comparação com raças maiores; duração da doença, quanto mais tempo o cavalo estiver afetado no estado crônico pior o prognóstico.

CONCLUSÃO
Se um cavalo aparenta ter laminite este deve ser transportado para um boxe ou espaço com uma superfície mole e aí ermanecer até ser examinado pelo Médico Veterinário que poderá confirmar o diagnóstico e instigar o tratamento adequado.